Área de Concentração

O PPGM possui uma área de concentração: Metafísica

A história da Metafísica coincide em larga medida com a própria história do pensamento ocidental, entrelaçando-se decisivamente com a ciência e a cultura. Em sua acepção mais ampla, trata-se do estudo do “ser enquanto ser”. Todavia, cada uma das doutrinas ou momentos reflexivos que se dedicaram a essa investigação a revestiram com novas questões e objetos privilegiados. Intitulando em suas origens clássicas a uma inquirição do suprassensível que seria o coroamento de todos os esforços das outras ciências (“momento aristotélico”), as investigações metafísicas tornaram-se posteriormente uma irmã siamesa da Teologia e um saber regulador dos demais (“momento tomista”). Em seguida, a Metafísica vem a constituir-se como um saber autônomo, cuja ligação com a Teologia consiste agora em lhe fornecer as bases fundamentais (“momento suareziano”). Num primeiro movimento da Modernidade, a Metafísica é sutilmente dissociada da Teologia e situada, do ponto de vista metodológico, “antes” e não mais “depois” das ciências, como o fundamento de todo o saber – e em conjunção direta para com a Física (“momento cartesiano”). O sucesso da Filosofia natural moderna faz com que se questionem os princípios sob os quais a Metafísica até ali se pautara, de modo que a Física se torna então o modelo metodológico para uma Metafísica que se possa apresentar como ciência (“momento crítico”). Pelo emparelhamento das demais ciências à Física e ao seu “método experimental”, e a incompatibilidade deste para com qualquer conhecimento suprassensível, a Metafísica, enquanto área de investigação, torna-se uma atividade “não-científica”, i.e. “irracional” ou mera “superstição” (“momento positivista”). Com a proliferação contemporânea da escola histórica e sua defesa incondicional da relatividade de todo conhecimento, inclusive o científico, a Metafísica é feita somente um artefato da cultura, um relicário de opiniões que cada um traz consigo e que, não obstante nos espantem, não podem ser objeto de uma investigação racional. Daí não surpreende que o autor de um dos maiores livros de Metafísica do século XX, A Evolução Criadora (1907), embora entrelaçasse as suas intuições aos resultados das teorias científicas da vida então vigentes, Bergson foi laureado por seus contemporâneos com o prêmio Nobel de literatura (1927), posto que, de um livro de Metafísica, apenas conviria premiar o estilo e imaginação do escritor.

Apesar disso, inúmeros estudos originais e influentes no pensamento contemporâneo se guiaram por questões metafísicas, alguns para as retomar, outros para as criticar, todos, enfim, para as repensar. Que uma obra tão influente quanto as Investigações Filosóficas [Tractatus Logico-Philosophicus] se proponha uma contínua “terapia de linguagem” pela qual possamos nos livrar dos pseudoproblemas relegados pela Filosofia (entendida pelo autor no sentido de “Metafísica”) mostra claramente  como estas invulgares questões sobre o Ser enquanto tal ou os primeiros princípios estimulam o pensamento atual. Além do interesse para aqueles que estudam diretamente estes temas, a repercussão destes trabalhos em diversas áreas – Literatura, Linguística, Antropologia, Psicologia cognitiva, Direito, Biologia, dentre outras – atesta que as questões neles abordadas foram capazes de inocular a cultura e, em alguns casos, conduzi-la por novas direções. Com a proposta da Área de Concentração Metafísica, o Programa Interdisciplinar aqui ensejado deseja abordar os problemas metafísicos em consonância com as ciências e as culturas que os abrigam e que se constituíram em torno destes tais problemas. As questões científicas e, num sentido mais geral, “culturais”, são hoje recobertas por vários campos disciplinares. Sendo assim, pensar conjuntamente os problemas metafísicos, científicos e culturais requer um esforço que transcenda os limites metodológicos de cada um deles.